domingo, 26 de setembro de 2010

Para ouvir a música...

A vida é um rodopio de opções constantes. Quantas vezes pensamos que temos tudo decidido no âmbito X ou Y da nossa vida e lá vem algo que nos faz parar na encruzilhada?
Tantos caminhos, por dentro e por fora de nós. Nem sempre, quase sempre, os mais largos não são os mais acertados. Se é que existem caminhos acertados…
Este momento, tudo o que sei é que tenho espaço para andar em muitos planos da minha vida. Mas o meu coração continua a tocar esta música triste como que a pedir consolo. Quando saio para a rua com o meu passo decidido, os que se cruzam comigo devem pensar que a minha vida corresponde ao meu sorriso. Que se não há sorriso é porque o cansaço do trabalho no abafou. Enganam-se! Com sorriso ou sem sorriso, dentro de mim o meu coração ora grita, ora sussurra esta música triste e romântica que me acompanhará sempre. Se pensam que quero voltar para trás, enganam-se também. O meu passado não tem caminhos a repetir. Aprendi e aprendo muito a olhar o passado, mas não quero repeti-lo.
Mas afinal o que é que eu quero??? Bem… Precisaria de uma mão a segurar a minha e de um ouvido encostado ao meu peito para absorver esta música do meu coração. Mas agora teria que ser a mão certa e o ouvido certo. A mão que não se cansa e o ouvido que sabe ouvir e interpretar. E talvez esse alguém nem exista…
 Certo é que não farei de conta que é certo o que o não é. Que encaixa bem o que não encaixa. Chega de sapatos apertados, de saias justas, de corpetes que me sufocam, de traços e de cores que me chocam. Não aceitarei mais uma imitação barata porque o meu coração não vai voltar a comprar na feira.
As minhas opções são reduzidas? Claro que sim! Mas não será por isso que vou olhar para trás ou para o chão. Os meus olhos fixar-se-ão sempre no horizonte e, até que Deus me recolha, continuarei a busca da felicidade.
O Violoncelista de Roberto Ploeg
 “o Violoncelista”

domingo, 12 de setembro de 2010

O PRESENTE

«Não importa saber se a gente acredita em Deus: o importante é saber se Deus acredita na gente...»
Mário Quintana

Deus acreditou em mim e deu-me um PRESENTE!
Sim, Deus presenteou-me com um momento lindo e mágico. Um presente que, na verdade, me trouxe a alegria de quem recebe um ramo de flores frescas. Flores de um jardim que existe, sim, mas que só visito nos meus sonhos mais secretos. Tal como as flores, este momento inundou o meu coração de cor, de presença de um jardim que… nem sei onde fica.
Mas foi um presente. Digo que foi de Deus porque só ele teria a força para transformar uma réstia de sonho, num feliz e poderoso momento de realidade provocado pelo suposto acaso. Se não veio de Deus, continuará a ser um presente, mas um presente envenenado. Daqueles que nos deliciam no momento e nos matam no futuro. De uma maneira ou de outra, como um ramo de flores frescas, este presente irá envelhecer no passar lento dos meus dias. Por mais que lhe troque a água, o afastamento do jardim, secará estas flores.
Mesmo assim, valeu a pena receber este presente. Envenenado ou não, desta vez tentei agarrá-lo firmemente, como uma criança abraça o presente almejado que não esperava receber. Não procedi como usualmente, passando ao lado arrogantemente e com mal disfarçada indiferença. Fiz isso muitas vezes. Naturalmente quereria o jardim com toda a sua fauna e flora… e não um ramo apenas das suas flores. Racionalmente não nos aproximamos quando sabemos que não temos portão aberto para entrar e que o muro é demasiado alto… O medo de cheirar as flores de um jardim em que só nos sentamos nos nossos sonhos é poderoso. É aterrador! Podemos ver e ouvir os pássaros daquele jardim, mas de longe. Sem saber que queremos que venham junto de nós, eles encenam voos delicados, mas ao longe…
Sonhar? Os sonhos não chegam. Os sonhos não têm cheiro. Na sua maioria, não têm as cores e os sons definidos e falta-lhes o toque do jardim, das flores, dos pássaros…
Poder-se-á perguntar: «Mas afinal, que presente é este?» Não posso nomeá-lo, não posso expô-lo. Se colocar este “ramo de flores” à mercê do calor impiedoso das convicções e preconceitos das gentes, consumir-se-á rapidamente. As gentes não nos dão o direito de sonhar alto... Mas posso adiantar que foi um momento único de imagem, palavras, gestos e sorriso. Flores que o tempo secará, com certeza, mas que eu não esquecerei que recebi.
Esta é a história estranha do “presente” que não sabe que o é. Do “presente” que é passado transportado para o presente e que, graças à minha capacidade de sonhar, manterá muitas das suas cores no futuro.