sábado, 19 de março de 2011

Pai


Pai

Hoje chorarei por ti uma lágrima...
Mas só uma!
As lágrimas são preciosas e curativas.
Não se gasta o que é precioso (aprendi contigo).
Não se gastam "remédios" com o irremediável.

Desculpa, mas há coisas de que não me recordo...

Não me recordo da tua mão para me levantar.
Não me recordo do teu conselho amigo.
Não me recordo de seres feliz por mim.
Não me recordo de me apontares a porta certa.
Não me recordo do teu incentivo.
Não me recordo de segurares o meu braço de noiva…
Porque nunca o fizeste.

Mas, sim…
Recordo-me de estares na minha frente.
Recordo-me da tua indiferença.
Recordo-me do teu dedo apontado,
Mas o som da tua voz embrulha-se no praguejar dos trovões…
E deixei de te ouvir.

Lembro-me de ti à mesa da sala.
Sempre com um maço de notas entre os dedos.
Lembro-me do teu rosto doente…
Sorvendo a sopa que te chegava à boca sem me veres.
Lembro-me de ti na missa.
Vergado num genuflexório hipócrita.
Rodeado de hipocrisia e vazio,  é como eu  te lembro.

O que é que eu quero de ti?
Nada daquilo que valorizas.
O que eu queria de ti…
Desculpa mas não mo podes dar…
Porque simplesmente não tens.

Paula Baptista

quarta-feira, 16 de março de 2011

As andorinhas...



POEMINHA SENTIMENTAL

 
O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.


Mario Quintana - Preparativos de Viagem

segunda-feira, 14 de março de 2011

Porquê?

Cruzaste aquele espaço ínfimo à velocidade da luz. Não tive tempo de te fixar os traços, nem de prender na minha memória as linhas do teu rosto ou do teu corpo. 
Porquê? Porque cruzaste assim tão efemeramente a minha existência? Tenho tanto a perguntar!... 
Perguntas às quais sei que não tens que responder, que não tens sequer que conhecer... nem deves.
Porquê?
Porque que é que demoraste algumas vezes os teus olhos tão demoradamente nos meus? Não sabes que os corações não mandam em si mesmos? 
Porque é que dividiste comigo algumas das tuas preocupações? Não sabes que os sons de algumas vozes se registam indelevelmente em algumas mentes? 
Porque é que achaste que era tudo normal e ocasional? Não sabes que o que para um coração é imperceptível, para outro pode carregar um ruído de muitos meses, anos, séculos? 
Não! Claro que não sabes. Não és o responsável por essa ignorância. 
Mas então quem é? Alguém tem que ser responsável pelo que existe, calca, persiste e magoa. 
Porque é que os meus sonhos acordados terminam todos em ti? 
Já não consigo lembrar claramente o teu rosto, mas consigo sentir muito forte a tua existência. 
Quero ignorar que algum dia te vi, te senti, te ouvi. Não consigo! 
Quero ver-te, ouvir-te, tornar-te presente e também não consigo. 
Não me sinto culpada por esta encruzilhada em que me encontro. 
Querer nem sempre é poder. Como não consigo nem uma coisa nem outra... 
Limito-me a aceitar pouco resignada a gota de ti que passou à minha frente. Um gota tão pequena e filtrada pela distância e pelo vidro à minha frente. 
Agora resta-me a desilusão, a saudade do que não tive, o reclamar do imerecido.

PB 

segunda-feira, 7 de março de 2011

Pensava que eras uma brisa e afinal eras...uma pedra...

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade