domingo, 8 de dezembro de 2019

Quando

Quando as lágrimas correm
Sem razão, sem rumo
Pelos trilhos da minh”alma
Na solidão da minha casa vazia...

Pergunto-me: porquê?
Porque comecei triste.
Porque comecei a crescer
Já pequena, já inútil, não bonita.

Nada disto é o agora.
Isto é apenas o estuário de um corgo que, por erro, brotou há 5 décadas.
Esta é apenas a corrente e o remoinho de que tentei sair.

Eu nunca fui suficiente,
nunca harmoniosa, nunca plena,
nunca bela, nunca algo, sempre aquém.

Por isso eu nunca tive naturalmente.
Eu tive o batalhado, o chorado, o suado.
Eu tive o não desistido.

É por isso que hoje dou sem me pedirem.
É por isso que hoje não me consolo com migalhas.

É por isso que choro, mas não aceito menos que um lugar ao sol no coração do outro.

PB dezembro 2019


quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Mar

Dei voltas e voltas...

Lá longe, pelo mar longínquo.
Para lá do horizonte.
Procurei...
Remei...

Levei Deus comigo e Deus comigo andou.
Sempre...
Afundei e emergi várias vezes.

Agora voltei à mesma enseada de onde parti.
Não encontrei par e estou cansada.
Não quero mais!
Não tenho mais força!

Não me doutrinem, nem me consolem...
Por favor... o salitre imenso da solidão cristaliza as minhas veias...
Não quero ouvir!
Se a maré encher, deixem apenas que me dissolva no infinito do mar.

nov 2019
PB






segunda-feira, 18 de novembro de 2019

A mentira é irmã do descuido

Neste mundo dos relacionamentos
Não adianta deixar entrar a mentira
Quando ela entra, abre a porta ao descuido.

A experiência diz-me que quem mente seriamente
Aos que seriamente os criaram ou por eles foram criados
Porque não hão-de mentir aos que só agora chegaram
Às suas vidas já pejadas de teias e contra teias?

Todos mentimos. Todos precisamos mentir aqui ou ali.
Mas desconfio dos que mentem assertivamente, despudoradamente...
Aos que amam e na frente de todos, nomeadamente dos que dizem amar...
“Nas nossas costas...”

E é assim que se conclui que a mentira “ tem pernas curtas”.
E é assim que me recuso a saber, para minha sanidade mental,
O tamanho das pernas das tuas mentiras...

18 novembro 2019

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Dei tudo

Dei tudo e não devia
Quis mostrar interesse,
Construir um relacionamento
Fomentar a paixão, o respeito,
Afranqueza e, mais importante que tudo,
O caminho para a confiança, a proteção mútua:
O amor..,
Falamos os dois a mesma língua, dizias tu...
Sim. Mas não sobre as mesmas coisas.
Certo é que já dei tudo. Adaptei-me e tentei compreender.
Mas não passo de um botão no bolso do casaco.

Novembro 2019 

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

A feira da Paiva Couceiro

Hoje, ao olhar o céu nublado, ao sentir o frio de novembro, recuei umas boas quatro décadas.
Vive-se o tempo das feiras de Natal, das montras e ruas iluminadas, do consumismo desenfreado. Como bem refere  Maria João Pica (sempre, em cada Natal) poucos estão focados no nascimento de Cristo, na família, na solidariedade, no amor... Todos correm, cada vez mais cedo, para as compras, os enfeites, os brilhos e os artifícios. Muito Pai Natal, menos Menino Jesus...
Mas hoje, como dizia, lembrei uma feira de natal na Praça Paiva Couceiro. Era o caos, o bricabraque, a desarrumação. Lá estavam as bonecas lindas... tão lindas... vendidas pelos feirantes humildes. As bonecas que faziam brilhar os meus olhos e que a carteira (ainda mais humilde e muitas vezes vazia) da minha mãe não me podia comprar. .. Mas eu passava, dia após dia, num casaco quentinho, num gorro quentinho, numa luva quentinha (que isso nunca me faltou) para namorar as bonecas de olhos castanhos e cabelos pretos, brilhantes, que não podia ter...
Recordações dos tempos em que o Menino Jesus, por vezes, nos fazia uma grande surpresa na manhã do dia de Natal e nós ficávamos tão gratos por ele se ter lembrado de nós.
Paula Baptista
nov 2019

terça-feira, 5 de novembro de 2019

As lágrimas são traiçoeiras como as chuvas de outono.
Irrompem livremente e enchem um rio de emoções retidas, esmagadas...
E não há como escoa-las sem que tudo fique inundado de dor, de realidade, de abismo...
As lágrimas... vale a pena partilhá-las? Só com quem guarde bem o segredo da enxurrada.
Só com o espaço em branco da escrita... que não age, que não lamenta e não faz queixa a ninguém...
As lágrimas... as minhas lágrimas que vão em rio com afluentes potentissimos...
Até Praga
Até à Baixa
Até ao Algarve
Até ao Brasil
Até ao Céu.
Sendo que o último é o que está mais perto.

PB
novembro 2019