
Das primeiras vezes que te vi, não reparei em mais nada para além da uma voz baixa, do ritmo pausado, como quem fala com alguma complacência para um auditório que se supõe ou violento, ou tosco. Credo! Senti-me na fileira dos "toscos", dado que nunca abri a minha boca senão para responder às perguntas que me eram dirigidas. Dias mais tarde juntei ao teu retrato um certo atrevimento e abertura ao bom humor. Despertaste o meu interesse. Comparei o teu percurso, divulgado por ti entre duas colheres da mesma mesa, e percebi. Percebi que me identificava contigo, com a tua paz. Observei-te de longe e pareceste-me perdido e sem rumo sob a aparência do homem que se quer mostrar experiente e bom vivant. Foi então que, sem te aperceberes disso, me fizeste esbarrar no muro da tua arrogância, escondida sob o teu semblante de veludo. Parei. Ainda tropecei momentaneamente num degrau no meio do meu caminho: o meu coração... Agora, como o teu caminho é diferente, já só te vejo de longe. Carrego agora o segredo de que já estiveste aqui tão perto, mesmo ao lado do meu coração. Um segredo um pouco triste e envergonhado que espero descarregar na primeira gare silenciosa em que pare este meu coração.
P. B.