quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Saudade


Se não tivesses partido, hoje estaríamos a comemorar os teus 83 anos. Que saudade, mãe! Não destes últimos anos em que o Alzeimer consumiu toda a tua alegria, toda a tua ternura... Tenho saudades daqueles muitos anos em que a escola começava em outubro e viamos juntas os dias de setembro ficarem mais pequenos.
Neste dia, levantava-me sempre de madrugada. Saltava o muro da vizinha porque queria colher a rosa mais bonita e mais fresca daquele jardim. Acordavas sempre com a rosa à cabeceira, acompanhada de um postal ilustrado onde, na maioria das vezes, brilhava um simples e orgulhoso conjunto de versos que te dedicava. Naquele tempo, nunca podíamos jantar fora ou sequer comprar-te o presente que merecias. Mas podíamos sentar-nos à mesa, no sótão e conversar, rir e ouvir música no velho gira-discos.
Nos últimos anos, em cada momento de lucidez, dizias-me sempre que não estarias cá para a próxima festa. Desta vez é mesmo verdade. E como doi esta verdade da tua ausência. Levaste contigo o cheiro das rosas, o brilho e colorido dos postais. Levaste contigo a minha pressa de chegar para jantar contigo e cantar os parabéns em torno de um bolo que, por vezes, quase se incendiava com uma vela para cada primavera tua. Levaste contigo o verão deste ano e, sem ti, o outono terá as chuvas mais frias  e as árvores  mais  nuas.  A  partir de agora as  árvores da  Parada vão estar sempre nuas porque as janelas estarão sempre fechadas.
Amo-te, Mãe.

Paula Baptista

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Aguarela



Tenho tantas saudades... Dizem que o tempo apaga tudo, mas... O teu rosto permanece a pairar sobre mim como uma aguarela eterna e indestrutível.
Queria tanto rever-te, falar-te… Mas os teus ouvidos não podem ouvir-me. Todos os teus sentidos estão vedados a qualquer ação minha. Continuo o meu caminho neste meu mundo que não é o teu, mas que não me deixa esquecer-te.
P.B.