segunda-feira, 25 de abril de 2011

Sem rumo...


Depois da tempestade vem a bonança – dizem…
Mas quando o vento amainou,
Quando a chuva parou,
Quando os relâmpagos deixaram o céu,
As portas fecharam-se.
O estandarte caiu do seu posto
E a rua ficou deserta.
Os barcos abandonaram o porto
Desta feita para lugar incerto.
E agora?
O vazio instalou-se: negro, oco e triste.
Não há rumo para o meu barco.
Não há onde procurar uma réstia
Da luz dos teus olhos,
Que nem cheguei a ver.
Do som da tua voz,
Que nem cheguei a ouvir.
Do brilho das tuas cores,
Que não tingiram o meu céu de azul bonança.
Depois da tempestade, veio o vazio – digo.
P.B.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O pântano


Finalmente choveu!
Dos meus olhos cansados
Correram rios de águas límpidas.
O dique da minha alma triste finalmente cedeu.

O pesadelo tortuoso da tua imagem sufocava a minha garganta.
E um monte de cascalho engrossava diariamente,
Esta bolha enorme da minha existência.

Deus sabe o quanto me arrependo de me ter sentado
Junto ao teu enorme e soberbo pântano.
Escondido por águas superficiais semi-transparentes…
Cobertas de nenúfares enganadores.

Dou graças por não ter pisado o teu lodo movediço.
Por me ter mantido na margem,
Nesta atitude contemplativa de quem
Não se acha no direito de mergulhar…
Que horror seria!

Felizmente, as pedrinhas que fui atirando,
Avisaram os meus sentidos.
As pedrinhas lançadas nunca saltitaram graciosamente.
Eram rapidamente engolidas pelo teu lodo indiferente…
Sem esperança, sem retorno.

Hoje, finalmente, o açude cedeu.
E as minhas lágrimas correram livremente...
Desta feita, elas correram para o mar.

PB

domingo, 17 de abril de 2011

Um novo entardecer


Não existe nada mais difícil do que a percepção de que não auferimos da amizade, da cordialidade, de alguém que admirávamos e respeitávamos. É uma dor profunda acompanhada de raiva e pena pelo investimento de atenção inútil.
Mas porquê? Também gostamos de plantas, de jardins, de flores, de peixes, de aves, de uma escultura ou de uma pintura. Não esperamos, no entanto, que eles nos devolvam cordialmente um sorriso, um aperto de mão, uma frase num sms ou num e-mail. Não esperamos nada. Já se for de um cachorro ou de um gato, esperamos talvez a lambidela simpática que recompensa a nossa festa amigável.
Mas as pessoas… as pessoas são absolutamente surpreendentes. Talvez porque esperamos delas que sejam “pessoas”. Não animais de estimação, mas também não narcisos indiferentes à nossa presença e afecto. Não pinturas belas e coloridas que não nos devolvem o olhar que depositamos nelas. As pinturas não têm alma, certo? Ou melhor, tiveram a alma de quem as pintou e depois terão outras almas: as de quem as admira e interpreta. Não são seres vivos, certo?
O meu leitor pode agora perguntar: “onde queres chegar?”.
A resposta é simples: não consegui chegar! Tenho que contentar-me com a injustiça plena de apenas ter partido.
Mas quero deixar uma mensagem a todos aqueles que se julgam pessoas. Alguns até pessoas importantes: VIP. Olhai bem à vossa volta e perguntai: estou a ser realmente uma pessoa, ou limito-me a ser um narciso, belo mas indiferente? Serei apenas belo e indiferente relativamente a alguns seres humanos que não considero que me mereçam atenção? Não porque me tenham sido desagradáveis ou nefastos. Simplesmente porque não me apetece perder um segundo da minha vida egoísta a devolver-lhes o sorriso, a pequena atenção, o elogio discreto que me votaram.
Sei que o mundo actual não se compadece com a tristeza de ninguém. Que um mau gesto é muito mais valorizado e prontamente ripostado que a delicadeza fruto da amizade. Mas mesmo assim, acredito que não é preciso ser-se tão frio, tão rude, tão mesquinho...
Felizmente que há sempre um novo entardecer, um outro caminho, um outro ser humano (o mundo está cheio deles). E... talvez para a próxima tenha mais sorte na aposta da minha amizade.
P.B. 

sábado, 16 de abril de 2011

Que me importa?

Hoje acordei a pensar:
Que me importa?
Que me importa a mim o que digam?
Que importa que possam dizer, pensar, rir?
Não tenho que me importar!

Em cada gesto meu
Em busca do alívio... que nunca vem.
Saio rápida, como uma flecha,
Como quem roubou um chocolate da loja...
Logo eu, que nunca roubei nada a ninguém.
E também não te quero roubar a ti, é certo.
Nem o tempo, nem a tranquilidade,
Nem mesmo um olhar ou uma palavra.
Isso deveria chegar para me tranquilizar.
Só piso a rua que é livre.
Só respiro o ar que é de todos.
Se alguém me perguntar onde me leva o meu caminho,
Responderei que não tenho um fim.
Apenas me interessa a experiência da caminhada.

P.B.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Maldigo-te Jardim Maldito


Eu te amaldiçoo, jardim nefando.
Odeio-te com todas as forças com que te amo.
Amaldiçoadas as cores da tua relva, da tua terra,
Das tuas copas, das tuas flores.
Jardim proibido, jardim suspenso.
Jardim brilhante e sorridente.
Jardim de fogo, jardim de frio.
Jardim de plástico armado em oásis?
Jardim cego de tanta soberba?
Eu te amaldiçoo e aos teus cheiros e chilreios.
Eu odeio a cor do momento que me fez querer entrar no teu portão.
Pensavas que me queria instalar em ti?
Pensavas que viveria presa nos teus muros?
Não!

Maldito sejas por me prenderes os olhos.
Por me fazeres desejar passear em ti.
Odeio-te e odeio-me...
Por ter deixado o meu coração triste voltar a sonhar.
Por ter deixado os meus passos rondarem os teus muros.
Maldito Jardim suspenso de uma irrealidade inútil.
Teria sido tudo tão simples se não fosses maldito.
Se eu tivesse entrado, sentado….
Absorvido a tua beleza e simplesmente…
Partido ao anoitecer.
Achaste que eu não era digna de cruzar os teus trilhos?
Porquê?
Ninguém quis colher as tuas flores ou beber das tuas fontes!
Mesmo assim… envenenaste-me o ar.
Estou a ser injusta?
Não! Estou farta! Farta de ser odiosamente mulher e estúpida.
Quero que continues verde, azul, vermelho, amarelo…
Que continues a pintar-te de todas as cores do arco-íris.
Mas que o Deus que eu amo…
O Deus de todas cores, traços e cheiros…
Aniquile, de vez, a acção deste íman que me cola aos teus muros
E que me fere a alma desferindo-me contra a tuas grades.
Adeus.
P.B.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Pesada e leve... Secreta e pura...

Cavalo à solta

Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.

                    José Carlos Ary dos Santos