sábado, 28 de maio de 2011

As águas



Caminho com dificuldade na margem
Do rio que pode levar-me à luz ou às trevas
Arrastando-me olho as águas agitadas
Elas chamam, elas podem
Conduzir à saída e à chegada
No conflito entre a vontade e o medo:
A vontade de ser feliz
O medo de me afogar.

PB

domingo, 22 de maio de 2011

Sem factura, sem fama, sem horário


Um Pouco Mais de NósPodes dar uma centelha de lua, 
um colar de pétalas breves 
ou um farrapo de nuvem; 
podes dar mais uma asa 
a quem tem sede de voar 
ou apenas o tesouro sem preço 
do teu tempo em qualquer lugar; 
podes dar o que és e o que sentes 
sem que te perguntem 
nome, sexo ou endereço; 
podes dar em suma, com emoção, 
tudo aquilo que, em silêncio, 
te segreda o coração; 
podes dar a rima sem rima 
de uma música só tua 
a quem sofre a miséria dos dias 
na noite sem tecto de uma rua; 
podes juntar o diamante da dádiva 
ao húmus de uma crença forte e antiga, 
sob a forma de poema ou de cantiga; 
podes ser o livro, o sonho, o ponteiro 
do relógio da vida sem atraso, 
e sendo tudo isso serás ainda mais, 
anónimo, pleno e livre, 
nau sempre aparelhada para deixar o cais, 
porque o que conta, vendo bem, 
é dar sempre um pouco mais, 
sem factura, sem fama, sem horário, 
que a máxima recompensa de quem dá 
é o júbilo de um gesto voluntário. 

E, afinal, tudo isso quanto vale ? 
Vale o nada que é tudo 
sempre que damos de nós 
o que, sendo acto amor, ganha voz 
e se torna eterno por ser único e total. 

José Jorge Letria

sábado, 14 de maio de 2011

Procuro-te (Eugénio de Andrade)





Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

Eugénio de Andrade, in "As Palavras Interditas"

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Cansada


Cansada...
Cansada  de me lembrar de ti a cada dia.
Cansada de não conseguir excluir-te.
Cansada de não conseguir que a minha razão diga ao meu coração que não és nada, que não és ninguém...
A tua imagem não abandona o meu cérebro apesar da raiva que lhe imponho. Apesar do desprezo forçado que lhe injecto em cada madrugada.
Não posso aceitar que esteja ligada por energias que desconheço a um ser que, para mim, não passa de um estranho. Logo eu!
Não! Não é uma obsessão da mente desocupada de uma mulher madura!
Já analisei. Já interpretei. Já tentei corrigir... Não consigo.
Por isso apelo a mim e para além de mim.
Pelo menos queria perceber, porque a percepção poderia dar-me a solução.
Esta é a esperança de quem acredita em três premissas:
Deus acima de tudo. O Amor tem poder. Do Conhecimento nasce a luz.
Assim, tento apelar para Deus e… esperar. Reconhecer o Amor onde ele existe e… esperar.
Neste caso, o Conhecimento é o único passível de acção. Procurar conhecer-te e procurar conhecer-me…
A inteligibilidade da tua presença na minha vida seria, possivelmente, a resposta para te apagar de mim...
Será que as duas primeiras premissas não me deixam chegar à terceira?

P.B.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Em série...



A RUA DOS CATAVENTOS

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Mario Quintana

domingo, 1 de maio de 2011

Continuo a sentir...


Continuo a sentir...
E eu que não quero e não posso sentir mais.

Sempre que penso que já chorei tudo, há sempre mais uma lágrima.
Sinto-te em cada música. Invento-te em cada verso.
Vejo-te em cada cor e em cada traço.
Projecto-te em cada sonho.

Preciso de te ver.
Quem me dera saber onde encontrar-te.
Poder abordar-te incógnita e imperceptível.
Tentar perceber o que me liga a ti.
Afinal eu nem sei o motivo desta sombra que me acompanha...

Quero arrancar-te do meu peito de vez!
Se levaste o meu coração contigo, tenho que recuperá-lo.
Se me roubaste a paz, tenho que reavê-la.
Que essa energia superior guie os meus passos
E me liberte deste peso que me sobrecarrega o ser.

Quero deixar de sentir...


P.B.