| Pintura de Hélio Cunha |
sábado, 3 de dezembro de 2011
Não perder a esperança
Não perder a esperança. Trata-se essencialmente disso: de
não perder a esperança.Foi isso que procurei em ti e procuro em cada rosto, em
cada ilusão...Não perder a capacidade de sonhar. Sonhar com paz, tolerância,
carinho, cumplicidade... Sonhar com a imaginação.São tantas as feridas… Umas saradas, outras quase… Mas a
única forma de não perecer é continuar a caminhar por entre os espinhos… Todos
têm ponto de equilíbrio, mas muitos não o procuram: desistem. Não lido muito
bem com esse conceito::desistência. Continuo a caminhar porque acredito.Acredito porque não
perdi a esperança. É isso. Trata-se essencialmente disso.PB
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Agora
Agora sim.
A tua imagem começa a ficar difusa.
A minha mente começa a aplicar o sfumato à tua pessoa.
Ficas a cada dia mais longe do meu coração.
O meu coração fica mais perto da realidade.
Isto porque a realidade não perdoa às ilusões.
Pena que nesta tela o sfumato domine.
Pena que a figura central não tenha aparecido.
Pena que o ponto de fuga (literalmente) ainda não se defina.
Ainda... Ainda...
Por isso ainda te recordo e te espero ou espero...
Deixar de esperar-te.
PB
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Saudade
Se não tivesses partido, hoje estaríamos a comemorar os teus 83 anos. Que saudade, mãe! Não destes últimos anos em que o Alzeimer consumiu toda a tua alegria, toda a tua ternura... Tenho saudades daqueles muitos anos em que a escola começava em outubro e viamos juntas os dias de setembro ficarem mais pequenos.
Neste dia, levantava-me sempre de madrugada. Saltava o muro da vizinha porque queria colher a rosa mais bonita e mais fresca daquele jardim. Acordavas sempre com a rosa à cabeceira, acompanhada de um postal ilustrado onde, na maioria das vezes, brilhava um simples e orgulhoso conjunto de versos que te dedicava. Naquele tempo, nunca podíamos jantar fora ou sequer comprar-te o presente que merecias. Mas podíamos sentar-nos à mesa, no sótão e conversar, rir e ouvir música no velho gira-discos.
Nos últimos anos, em cada momento de lucidez, dizias-me sempre que não estarias cá para a próxima festa. Desta vez é mesmo verdade. E como doi esta verdade da tua ausência. Levaste contigo o cheiro das rosas, o brilho e colorido dos postais. Levaste contigo a minha pressa de chegar para jantar contigo e cantar os parabéns em torno de um bolo que, por vezes, quase se incendiava com uma vela para cada primavera tua. Levaste contigo o verão deste ano e, sem ti, o outono terá as chuvas mais frias e as árvores mais nuas. A partir de agora as árvores da Parada vão estar sempre nuas porque as janelas estarão sempre fechadas.
Amo-te, Mãe.
Paula Baptista
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Aguarela
Tenho tantas saudades... Dizem que o tempo apaga tudo, mas... O teu rosto permanece a pairar sobre mim como uma aguarela eterna e indestrutível.
Queria tanto rever-te, falar-te… Mas os teus ouvidos não podem ouvir-me. Todos os teus sentidos estão vedados a qualquer ação minha. Continuo o meu caminho neste meu mundo que não é o teu, mas que não me deixa esquecer-te.
P.B.
domingo, 7 de agosto de 2011
Epitáfio (Cecília Meireles)
| Praia de Vila Nova de Milfontes As águas onde tantas vezes entrámos de mãos dadas... |
Ainda correm lágrimas pelos
teus grisalhos, tristes cabelos,
na terra vã desintegrados,
em pequenas flores tornados.
Todos os dias estás viva,
na soledade pensativa,
ó simples alma grave e pura,
livre de qualquer sepultura!
E não sou mais do que a menina
que a tua antiga sorte ensina.
E caminhamos de mão dada
pelas praias da madrugada.
Cecília Meireles, in 'Poemas (1942-1959)'
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Foste embora...
Mãe! Mãe! Ouço o meu peito gemer.
Ainda não acredito que foste embora!
Sei que estavas cansada de tudo:
Do mundo, de todos nós e de ti mesma.
Sei que querias descansar no seio de Deus
Da tua vida tão cheia de lutas e lágrimas.
Mas a tua vida também foi cheia de vitórias
Também teve risos e ramos de amor.
Foste embora, Mãe.
Deixaste o mundo mas deixaste nele a tua marca.
Nós estaremos aqui mais algum tempo
Para recordar quem foste e o que nos legaste.
Estas Marias seguem o seu caminho
De certa forma aberto e talhado pelo teu.
E quando Deus nos quiser,
Esperamos rumar para junto de ti,
Com a mesma força e serenidade que nos deixaste.
Obrigada Mãe.
Paula Baptista
domingo, 19 de junho de 2011
E que a dor desaparecesse
Queria encostar a minha face à tua
E que a dor desaparecesse como por magia.
Nesse momento, os sonhos viravam realidade,
A mentira convertia-se em verdade,
O longe, vertiginosamente, perto seria,
O negro as suas sombras em azul desbotaria...
"Simplesmente não" virava "claro que sim" e eu teria
Alívio e presença em lugar de dor e saudade.
PB
sábado, 28 de maio de 2011
As águas
Caminho com dificuldade na margem
Do rio que pode levar-me à luz ou às trevas
Arrastando-me olho as águas agitadas
Elas chamam, elas podem
Conduzir à saída e à chegada
No conflito entre a vontade e o medo:
A vontade de ser feliz
O medo de me afogar.
PB
domingo, 22 de maio de 2011
Sem factura, sem fama, sem horário
Um Pouco Mais de NósPodes dar uma centelha de lua,
um colar de pétalas breves
ou um farrapo de nuvem;
podes dar mais uma asa
a quem tem sede de voar
ou apenas o tesouro sem preço
do teu tempo em qualquer lugar;
podes dar o que és e o que sentes
sem que te perguntem
nome, sexo ou endereço;
podes dar em suma, com emoção,
tudo aquilo que, em silêncio,
te segreda o coração;
podes dar a rima sem rima
de uma música só tua
a quem sofre a miséria dos dias
na noite sem tecto de uma rua;
podes juntar o diamante da dádiva
ao húmus de uma crença forte e antiga,
sob a forma de poema ou de cantiga;
podes ser o livro, o sonho, o ponteiro
do relógio da vida sem atraso,
e sendo tudo isso serás ainda mais,
anónimo, pleno e livre,
nau sempre aparelhada para deixar o cais,
porque o que conta, vendo bem,
é dar sempre um pouco mais,
sem factura, sem fama, sem horário,
que a máxima recompensa de quem dá
é o júbilo de um gesto voluntário.
E, afinal, tudo isso quanto vale ?
Vale o nada que é tudo
sempre que damos de nós
o que, sendo acto amor, ganha voz
e se torna eterno por ser único e total.
José Jorge Letria
sábado, 14 de maio de 2011
Procuro-te (Eugénio de Andrade)
Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.
Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.
Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.
Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.
Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.
Eugénio de Andrade, in "As Palavras Interditas"
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.
Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.
Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.
Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.
Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.
Eugénio de Andrade, in "As Palavras Interditas"
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Cansada
Cansada...
Cansada de me lembrar de ti a cada dia.
Cansada de não conseguir excluir-te.
Cansada de não conseguir que a minha razão diga ao meu coração que não és nada, que não és ninguém...
A tua imagem não abandona o meu cérebro apesar da raiva que lhe imponho. Apesar do desprezo forçado que lhe injecto em cada madrugada.
Não posso aceitar que esteja ligada por energias que desconheço a um ser que, para mim, não passa de um estranho. Logo eu!
Não! Não é uma obsessão da mente desocupada de uma mulher madura!
Já analisei. Já interpretei. Já tentei corrigir... Não consigo.
Por isso apelo a mim e para além de mim.
Pelo menos queria perceber, porque a percepção poderia dar-me a solução.
Esta é a esperança de quem acredita em três premissas:
Deus acima de tudo. O Amor tem poder. Do Conhecimento nasce a luz.
Assim, tento apelar para Deus e… esperar. Reconhecer o Amor onde ele existe e… esperar.
Neste caso, o Conhecimento é o único passível de acção. Procurar conhecer-te e procurar conhecer-me…
A inteligibilidade da tua presença na minha vida seria, possivelmente, a resposta para te apagar de mim...
Será que as duas primeiras premissas não me deixam chegar à terceira?
P.B.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Em série...
A RUA DOS CATAVENTOS
Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
Mario Quintana
domingo, 1 de maio de 2011
Continuo a sentir...
Continuo a sentir...
E eu que não quero e não posso sentir mais.
Sempre que penso que já chorei tudo, há sempre mais uma lágrima.
Sinto-te em cada música. Invento-te em cada verso.
Vejo-te em cada cor e em cada traço.
Projecto-te em cada sonho.
Preciso de te ver.
Quem me dera saber onde encontrar-te.
Poder abordar-te incógnita e imperceptível.
Tentar perceber o que me liga a ti.
Afinal eu nem sei o motivo desta sombra que me acompanha...
Quero arrancar-te do meu peito de vez!
Se levaste o meu coração contigo, tenho que recuperá-lo.
Se me roubaste a paz, tenho que reavê-la.
Que essa energia superior guie os meus passos
E me liberte deste peso que me sobrecarrega o ser.
Quero deixar de sentir...
P.B.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Sem rumo...
Depois da tempestade vem a bonança – dizem…
Mas quando o vento amainou,
Quando a chuva parou,
Quando os relâmpagos deixaram o céu,
As portas fecharam-se.
O estandarte caiu do seu posto
E a rua ficou deserta.
Os barcos abandonaram o porto
Desta feita para lugar incerto.
E agora?
O vazio instalou-se: negro, oco e triste.
Não há rumo para o meu barco.
Não há onde procurar uma réstia
Da luz dos teus olhos,
Que nem cheguei a ver.
Do som da tua voz,
Que nem cheguei a ouvir.
Do brilho das tuas cores,
Que não tingiram o meu céu de azul bonança.
Depois da tempestade, veio o vazio – digo.
P.B.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
O pântano
Finalmente choveu!
Dos meus olhos cansados
Correram rios de águas límpidas.
O dique da minha alma triste finalmente cedeu.
O pesadelo tortuoso da tua imagem sufocava a minha garganta.
E um monte de cascalho engrossava diariamente,
Esta bolha enorme da minha existência.
Deus sabe o quanto me arrependo de me ter sentado
Junto ao teu enorme e soberbo pântano.
Escondido por águas superficiais semi-transparentes…
Cobertas de nenúfares enganadores.
Dou graças por não ter pisado o teu lodo movediço.
Por me ter mantido na margem,
Nesta atitude contemplativa de quem
Não se acha no direito de mergulhar…
Que horror seria!
Felizmente, as pedrinhas que fui atirando,
Avisaram os meus sentidos.
As pedrinhas lançadas nunca saltitaram graciosamente.
Eram rapidamente engolidas pelo teu lodo indiferente…
Sem esperança, sem retorno.
Hoje, finalmente, o açude cedeu.
E as minhas lágrimas correram livremente...
Desta feita, elas correram para o mar.
PB
domingo, 17 de abril de 2011
Um novo entardecer
Não existe nada mais difícil do que a percepção de que não auferimos da amizade, da cordialidade, de alguém que admirávamos e respeitávamos. É uma dor profunda acompanhada de raiva e pena pelo investimento de atenção inútil.
Mas porquê? Também gostamos de plantas, de jardins, de flores, de peixes, de aves, de uma escultura ou de uma pintura. Não esperamos, no entanto, que eles nos devolvam cordialmente um sorriso, um aperto de mão, uma frase num sms ou num e-mail. Não esperamos nada. Já se for de um cachorro ou de um gato, esperamos talvez a lambidela simpática que recompensa a nossa festa amigável.
Mas as pessoas… as pessoas são absolutamente surpreendentes. Talvez porque esperamos delas que sejam “pessoas”. Não animais de estimação, mas também não narcisos indiferentes à nossa presença e afecto. Não pinturas belas e coloridas que não nos devolvem o olhar que depositamos nelas. As pinturas não têm alma, certo? Ou melhor, tiveram a alma de quem as pintou e depois terão outras almas: as de quem as admira e interpreta. Não são seres vivos, certo?
O meu leitor pode agora perguntar: “onde queres chegar?”.
A resposta é simples: não consegui chegar! Tenho que contentar-me com a injustiça plena de apenas ter partido.
Mas quero deixar uma mensagem a todos aqueles que se julgam pessoas. Alguns até pessoas importantes: VIP. Olhai bem à vossa volta e perguntai: estou a ser realmente uma pessoa, ou limito-me a ser um narciso, belo mas indiferente? Serei apenas belo e indiferente relativamente a alguns seres humanos que não considero que me mereçam atenção? Não porque me tenham sido desagradáveis ou nefastos. Simplesmente porque não me apetece perder um segundo da minha vida egoísta a devolver-lhes o sorriso, a pequena atenção, o elogio discreto que me votaram.
Sei que o mundo actual não se compadece com a tristeza de ninguém. Que um mau gesto é muito mais valorizado e prontamente ripostado que a delicadeza fruto da amizade. Mas mesmo assim, acredito que não é preciso ser-se tão frio, tão rude, tão mesquinho...
A resposta é simples: não consegui chegar! Tenho que contentar-me com a injustiça plena de apenas ter partido.
Mas quero deixar uma mensagem a todos aqueles que se julgam pessoas. Alguns até pessoas importantes: VIP. Olhai bem à vossa volta e perguntai: estou a ser realmente uma pessoa, ou limito-me a ser um narciso, belo mas indiferente? Serei apenas belo e indiferente relativamente a alguns seres humanos que não considero que me mereçam atenção? Não porque me tenham sido desagradáveis ou nefastos. Simplesmente porque não me apetece perder um segundo da minha vida egoísta a devolver-lhes o sorriso, a pequena atenção, o elogio discreto que me votaram.
Sei que o mundo actual não se compadece com a tristeza de ninguém. Que um mau gesto é muito mais valorizado e prontamente ripostado que a delicadeza fruto da amizade. Mas mesmo assim, acredito que não é preciso ser-se tão frio, tão rude, tão mesquinho...
Felizmente que há sempre um novo entardecer, um outro caminho, um outro ser humano (o mundo está cheio deles). E... talvez para a próxima tenha mais sorte na aposta da minha amizade.
P.B.
sábado, 16 de abril de 2011
Que me importa?
Hoje acordei a pensar:
Que me importa?
Que me importa a mim o que digam?
Que importa que possam dizer, pensar, rir?
Não tenho que me importar!
Em cada gesto meu
Em busca do alívio... que nunca vem.
Saio rápida, como uma flecha,
Como quem roubou um chocolate da loja...
Logo eu, que nunca roubei nada a ninguém.
E também não te quero roubar a ti, é certo.
Nem o tempo, nem a tranquilidade,
Nem mesmo um olhar ou uma palavra.
Isso deveria chegar para me tranquilizar.
Só piso a rua que é livre.
Só respiro o ar que é de todos.
Se alguém me perguntar onde me leva o meu caminho,
Responderei que não tenho um fim.
Apenas me interessa a experiência da caminhada.
P.B.
Que me importa?
Que me importa a mim o que digam?
Que importa que possam dizer, pensar, rir?
Não tenho que me importar!
Em cada gesto meu
Em busca do alívio... que nunca vem.
Saio rápida, como uma flecha,
Como quem roubou um chocolate da loja...
Logo eu, que nunca roubei nada a ninguém.
E também não te quero roubar a ti, é certo.
Nem o tempo, nem a tranquilidade,
Nem mesmo um olhar ou uma palavra.
Isso deveria chegar para me tranquilizar.
Só piso a rua que é livre.
Só respiro o ar que é de todos.
Se alguém me perguntar onde me leva o meu caminho,
Responderei que não tenho um fim.
Apenas me interessa a experiência da caminhada.
P.B.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Maldigo-te Jardim Maldito
Eu te amaldiçoo, jardim nefando.
Odeio-te com todas as forças com que te amo.
Amaldiçoadas as cores da tua relva, da tua terra,
Das tuas copas, das tuas flores.
Jardim proibido, jardim suspenso.
Jardim brilhante e sorridente.
Jardim de fogo, jardim de frio.
Jardim de plástico armado em oásis?
Jardim cego de tanta soberba?
Eu te amaldiçoo e aos teus cheiros e chilreios.
Eu odeio a cor do momento que me fez querer entrar no teu portão.
Pensavas que me queria instalar em ti?
Pensavas que viveria presa nos teus muros?
Não!
Maldito sejas por me prenderes os olhos.
Por me fazeres desejar passear em ti.
Odeio-te e odeio-me...
Por ter deixado o meu coração triste voltar a sonhar.
Por ter deixado os meus passos rondarem os teus muros.
Maldito Jardim suspenso de uma irrealidade inútil.
Teria sido tudo tão simples se não fosses maldito.
Se eu tivesse entrado, sentado….
Absorvido a tua beleza e simplesmente…
Partido ao anoitecer.
Achaste que eu não era digna de cruzar os teus trilhos?
Porquê?
Ninguém quis colher as tuas flores ou beber das tuas fontes!
Mesmo assim… envenenaste-me o ar.
Estou a ser injusta?
Não! Estou farta! Farta de ser odiosamente mulher e estúpida.
Quero que continues verde, azul, vermelho, amarelo…
Que continues a pintar-te de todas as cores do arco-íris.
Mas que o Deus que eu amo…
O Deus de todas cores, traços e cheiros…
Aniquile, de vez, a acção deste íman que me cola aos teus muros
E que me fere a alma desferindo-me contra a tuas grades.
Adeus.
P.B.
P.B.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Pesada e leve... Secreta e pura...
Cavalo à solta
Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.
Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.
Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.
Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.
Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.
Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.
José Carlos Ary dos Santos
sábado, 19 de março de 2011
Pai
Pai
Hoje chorarei por ti uma lágrima...
Mas só uma!
As lágrimas são preciosas e curativas.
Não se gasta o que é precioso (aprendi contigo).
Não se gastam "remédios" com o irremediável.
Desculpa, mas há coisas de que não me recordo...
Não me recordo da tua mão para me levantar.
Não me recordo do teu conselho amigo.
Não me recordo de seres feliz por mim.
Não me recordo de me apontares a porta certa.
Não me recordo do teu incentivo.
Não me recordo de segurares o meu braço de noiva…
Porque nunca o fizeste.
Mas, sim…
Recordo-me de estares na minha frente.
Recordo-me da tua indiferença.
Recordo-me do teu dedo apontado,
Mas o som da tua voz embrulha-se no praguejar dos trovões…
E deixei de te ouvir.
Lembro-me de ti à mesa da sala.
Sempre com um maço de notas entre os dedos.
Lembro-me do teu rosto doente…
Sorvendo a sopa que te chegava à boca sem me veres.
Lembro-me de ti na missa.
Vergado num genuflexório hipócrita.
Rodeado de hipocrisia e vazio, é como eu te lembro.
O que é que eu quero de ti?
Nada daquilo que valorizas.
O que eu queria de ti…
Desculpa mas não mo podes dar…
Porque simplesmente não tens.
Paula Baptista
quarta-feira, 16 de março de 2011
As andorinhas...
POEMINHA SENTIMENTAL
O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.
Mario Quintana - Preparativos de Viagem
segunda-feira, 14 de março de 2011
Porquê?
Cruzaste aquele espaço ínfimo à velocidade da luz. Não tive tempo de te fixar os traços, nem de prender na minha memória as linhas do teu rosto ou do teu corpo.
Porquê? Porque cruzaste assim tão efemeramente a minha existência? Tenho tanto a perguntar!...
Perguntas às quais sei que não tens que responder, que não tens sequer que conhecer... nem deves.
Porquê?
Porque que é que demoraste algumas vezes os teus olhos tão demoradamente nos meus? Não sabes que os corações não mandam em si mesmos?
Porque é que dividiste comigo algumas das tuas preocupações? Não sabes que os sons de algumas vozes se registam indelevelmente em algumas mentes?
Porque é que achaste que era tudo normal e ocasional? Não sabes que o que para um coração é imperceptível, para outro pode carregar um ruído de muitos meses, anos, séculos?
Não! Claro que não sabes. Não és o responsável por essa ignorância.
Mas então quem é? Alguém tem que ser responsável pelo que existe, calca, persiste e magoa.
Porque é que os meus sonhos acordados terminam todos em ti?
Já não consigo lembrar claramente o teu rosto, mas consigo sentir muito forte a tua existência.
Quero ignorar que algum dia te vi, te senti, te ouvi. Não consigo!
Quero ver-te, ouvir-te, tornar-te presente e também não consigo.
Não me sinto culpada por esta encruzilhada em que me encontro.
Querer nem sempre é poder. Como não consigo nem uma coisa nem outra...
Limito-me a aceitar pouco resignada a gota de ti que passou à minha frente. Um gota tão pequena e filtrada pela distância e pelo vidro à minha frente.
Agora resta-me a desilusão, a saudade do que não tive, o reclamar do imerecido.
PB
segunda-feira, 7 de março de 2011
Pensava que eras uma brisa e afinal eras...uma pedra...
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Carlos Drummond de Andrade
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Carlos Drummond de Andrade
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
AMOR É SÍNTESE (Mário Quintana)
Por favor não me analise,
Não fique procurando cada ponto fraco meu,
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu
Ciumento, exigente, inseguro, carente,
Todo cheio de marcas que a vida deixou.
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.
Amor é síntese,
É uma integração de dados,
Não há que tirar nem pôr.
Não me corte em fatias,
Ninguém consegue abraçar um pedaço,
Me envolva todo em seus braços
E eu serei perfeito, amor.
Mário Quintana
| Pintura de Edvard Munch, Amor e Dor ou Vampiro |
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Perguntei ao mar...
Perguntei ao mar um dia...
Perguntei ao mar um dia,
Se por ventura sabia,
A forma de ser feliz.
Disse-me para encontrar,
Aquela forma de amar,
Como a terra ama a raiz.
Que amar não é documento,
Será brisa, às vezes vento,
Sem saudade do passado,
Que é presente em construção,
Que amar não é ter à mão,
Alguém que está noutro lado.
Questionei-o intimamente,
Se o amor que agente sente,
Terá valor para alguém,
Só se for amor sincero,
Que de outra forma não espero,
Ter o amor de ninguém.
Que é isto que eu sinto agora,
Este amor de toda a hora,
Como se fosse um presente,
Eu espero ainda te ouvir,
Dizeres-me vamos partir,
Para uma vida diferente.
Patxi Lopez Andion
Patxi Lopez Andion
domingo, 16 de janeiro de 2011
Poema Cansado de Certos Momentos
Foi-se tudo
como areia fina escoada pelos dedos.
Mãe! aqui me tens,
metade de mim,
sem saber que metade me pertence.
Aqui me tens,
de gestos saqueados,
onde resta a saudade de ti
e do teu mundo de medos.
Meus braços, vê-os, estão gastos
de pedir luz
e de roubar distâncias.
Meus braços
cruzados
em cruz de calvário dos meus degredos.
Ai que isto de correr pela vida,
dissipando a riqueza que me deste,
de levar em cada beijo
a pureza que pariste e embalaste,
ai, mãe, só um louco ou um Messias
estendendo a face de justo
para os homens cuspirem o fel das veias,
só um louco, ou um poeta ou um Cristo
poderá beijar as rosas que os espinhos sangram
e, embora rasgado, beber o perfume
e continuar cantando.
Mãe! tu nunca previste
as geadas e os bichos
roendo os campos adubados
e o vizinho largando a fúria dos rebanhos
pela flor menina dos meus prados.
E assim, geraste-me despido
como as ervas,
e não olhaste os pegos nem as cobras,
verdes, viscosas, espreitando dos nichos.
De mão nua, entregaste-me ao destino.
Os anjos ficaram lá em cima, cobardes, ansiosos.
E sem elmos ou gibões,
nem lutei nem vivi:
fiquei quieto, absorto, em lágrimas
— e lá ao fundo esperavam-me valados
e chacais rancorosos.
Mãe! aqui me tens,
restos de mim.
Guarda-me contigo agora,
que és tu a minha justiça e o exílio
do perdido e do achado.
Guarda-me contigo agora
e adormece-me as feridas
com as guitarras do fado.
Mas caberá no teu regaço
o fantasma do perdido?
Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"
Foi-se tudo
como areia fina escoada pelos dedos.
Mãe! aqui me tens,
metade de mim,
sem saber que metade me pertence.
Aqui me tens,
de gestos saqueados,
onde resta a saudade de ti
e do teu mundo de medos.
Meus braços, vê-os, estão gastos
de pedir luz
e de roubar distâncias.
Meus braços
cruzados
em cruz de calvário dos meus degredos.
Ai que isto de correr pela vida,
dissipando a riqueza que me deste,
de levar em cada beijo
a pureza que pariste e embalaste,
ai, mãe, só um louco ou um Messias
estendendo a face de justo
para os homens cuspirem o fel das veias,
só um louco, ou um poeta ou um Cristo
poderá beijar as rosas que os espinhos sangram
e, embora rasgado, beber o perfume
e continuar cantando.
Mãe! tu nunca previste
as geadas e os bichos
roendo os campos adubados
e o vizinho largando a fúria dos rebanhos
pela flor menina dos meus prados.
E assim, geraste-me despido
como as ervas,
e não olhaste os pegos nem as cobras,
verdes, viscosas, espreitando dos nichos.
De mão nua, entregaste-me ao destino.
Os anjos ficaram lá em cima, cobardes, ansiosos.
E sem elmos ou gibões,
nem lutei nem vivi:
fiquei quieto, absorto, em lágrimas
— e lá ao fundo esperavam-me valados
e chacais rancorosos.
Mãe! aqui me tens,
restos de mim.
Guarda-me contigo agora,
que és tu a minha justiça e o exílio
do perdido e do achado.
Guarda-me contigo agora
e adormece-me as feridas
com as guitarras do fado.
Mas caberá no teu regaço
o fantasma do perdido?
Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"
sábado, 1 de janeiro de 2011
Estou sentada na minha sala a assistir ao Concerto de Ano Novo. A cada acorde, a cada nota, em cada passo de bailado, em cada flor, eu vejo-te, eu sinto-te. Benção ou maldição? Não encontro a resposta que me satisfaça e me acalme a alma. Ali estás tu, em tudo. Deus ainda não achou por bem apagar-te ou trazer-te até mim. Uma das duas coisas terá que acontecer. Um sentimento tão forte, sem alicerces, é um "colosso com pés de barro". Já racionalizei, já idealizei, já me aproximei, já me ausentei. Já fiz o que está ao meu alcance para te resolver. Resta-me esperar no meu Bom Deus a cura para esta chaga que o romantismo abriu no meu peito. Espero um sinal. Um sinal que me indique a direcção a seguir. Até lá continuarei a ouvir, a ver, a sentir tudo o que de mais belo há neste mundo à minha volta. A sentir esta vida que pulsa em meu redor e a lembrar-me de ti.
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