Cruzaste aquele espaço ínfimo à velocidade da luz. Não tive tempo de te fixar os traços, nem de prender na minha memória as linhas do teu rosto ou do teu corpo.
Porquê? Porque cruzaste assim tão efemeramente a minha existência? Tenho tanto a perguntar!...
Perguntas às quais sei que não tens que responder, que não tens sequer que conhecer... nem deves.
Porquê?
Porque que é que demoraste algumas vezes os teus olhos tão demoradamente nos meus? Não sabes que os corações não mandam em si mesmos?
Porque é que dividiste comigo algumas das tuas preocupações? Não sabes que os sons de algumas vozes se registam indelevelmente em algumas mentes?
Porque é que achaste que era tudo normal e ocasional? Não sabes que o que para um coração é imperceptível, para outro pode carregar um ruído de muitos meses, anos, séculos?
Não! Claro que não sabes. Não és o responsável por essa ignorância.
Mas então quem é? Alguém tem que ser responsável pelo que existe, calca, persiste e magoa.
Porque é que os meus sonhos acordados terminam todos em ti?
Já não consigo lembrar claramente o teu rosto, mas consigo sentir muito forte a tua existência.
Quero ignorar que algum dia te vi, te senti, te ouvi. Não consigo!
Quero ver-te, ouvir-te, tornar-te presente e também não consigo.
Não me sinto culpada por esta encruzilhada em que me encontro.
Querer nem sempre é poder. Como não consigo nem uma coisa nem outra...
Limito-me a aceitar pouco resignada a gota de ti que passou à minha frente. Um gota tão pequena e filtrada pela distância e pelo vidro à minha frente.
Agora resta-me a desilusão, a saudade do que não tive, o reclamar do imerecido.
PB

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