terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Gosto (Clarice Lispector)

Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das ideias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes… tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
- E daí? Eu adoro voar!
Não me dêem fórmulas certas, por que eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de mim, porque vou seguir o meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre...
Clarice Lispector
 

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Chegou o momento em que a vida é uma ordem...


Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

 Carlos Drummond de Andrade
Alexander Gorbikov

domingo, 28 de novembro de 2010

Família

Preparo-me...
Preparo-me para enfrentar o meu primeiro Natal sozinha.
Só eu e Deus. Deus a quem tudo agradeço e que muitas vezes esqueço ou contorno.
Afinal a que é que eu sacrifiquei a minha vida? Não foi à minha formação nem ao trabalho. Não foi à minha filha que essa não faz com que o meu caminho seja doloroso. A ela devo a minha razão de viver...
A que é que sacrifiquei a minha vida ao ponto de me esquecer de cuidar de mim?
Sacrifiquei a minha vida a algo que deveria ser mais elevado, mais importante, mais poderoso que tudo. A algo que deveria ter o poder de sarar, de estar acima do belo e do feio, do bem e do mal.
A algo que acreditei haver para todos e que, se o cultivássemos, estaria sempre ali. Acima da maldade, do dinheiro, da inveja, da solidão... Foi a isso que sacrifiquei a minha vida.
A algo que não tenho porque nunca quis pela metade...
O AMOR.

domingo, 21 de novembro de 2010

Longe

Caminho a muito custo
na incerta direcção do futuro...
Cada dia, cada semana, cada mês
passam por mim sem sinal de esperaça...
Perdi a tua imagem no tempo
Como se num navio que se afasta da margem
fosse perdendo as linhas definidas
da praia que representavas p'ra mim...
Perdi a tua voz e os traços do teu rosto...
Estranho é perder o que nunca se teve.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Nos versos de Florbela

Pintura de Cátia Rodrigues
Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida verdade, o Sentimento!
-- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
-- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

                            Florbela Espanca

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Talvez nunca...

Talvez nunca. Talvez um dia. Hoje, não!

Talvez um dia tu vás ver-me e não apenas rever-me. Quem sabe assumir um olhar fixo e sério, em vez de sorrir no vazio.
Um dia tu vais perceber-nos e eu vou chorar, em vez de sorrir também artificialmente.
Um dia vou pegar na tua mão em vez de espreitar de longe, em vez de disfarçar e fugir.
Um dia vou mostrar-nos...
Nesse dia, que pode nunca acontecer, vamos caminhar juntos na mesma direcção.
Vamos colar nossas testas e evitar desculpas.
Falar como conhecidos, como amigos, como parceiros...
Esse dia, que pode ser nunca ,está bem vivo nos meus sonhos.
Mas hoje, não! Hoje não vou...Receber uma migalha do teu olhar alegre de me ver, não chega!


http://www.youtube.com/watch?v=h8Lm4jg1GME&feature=related


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Permita

Serenata

"Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo"
Cecília Meireles

Pintura de Daniel Plante

domingo, 26 de setembro de 2010

Para ouvir a música...

A vida é um rodopio de opções constantes. Quantas vezes pensamos que temos tudo decidido no âmbito X ou Y da nossa vida e lá vem algo que nos faz parar na encruzilhada?
Tantos caminhos, por dentro e por fora de nós. Nem sempre, quase sempre, os mais largos não são os mais acertados. Se é que existem caminhos acertados…
Este momento, tudo o que sei é que tenho espaço para andar em muitos planos da minha vida. Mas o meu coração continua a tocar esta música triste como que a pedir consolo. Quando saio para a rua com o meu passo decidido, os que se cruzam comigo devem pensar que a minha vida corresponde ao meu sorriso. Que se não há sorriso é porque o cansaço do trabalho no abafou. Enganam-se! Com sorriso ou sem sorriso, dentro de mim o meu coração ora grita, ora sussurra esta música triste e romântica que me acompanhará sempre. Se pensam que quero voltar para trás, enganam-se também. O meu passado não tem caminhos a repetir. Aprendi e aprendo muito a olhar o passado, mas não quero repeti-lo.
Mas afinal o que é que eu quero??? Bem… Precisaria de uma mão a segurar a minha e de um ouvido encostado ao meu peito para absorver esta música do meu coração. Mas agora teria que ser a mão certa e o ouvido certo. A mão que não se cansa e o ouvido que sabe ouvir e interpretar. E talvez esse alguém nem exista…
 Certo é que não farei de conta que é certo o que o não é. Que encaixa bem o que não encaixa. Chega de sapatos apertados, de saias justas, de corpetes que me sufocam, de traços e de cores que me chocam. Não aceitarei mais uma imitação barata porque o meu coração não vai voltar a comprar na feira.
As minhas opções são reduzidas? Claro que sim! Mas não será por isso que vou olhar para trás ou para o chão. Os meus olhos fixar-se-ão sempre no horizonte e, até que Deus me recolha, continuarei a busca da felicidade.
O Violoncelista de Roberto Ploeg
 “o Violoncelista”

domingo, 12 de setembro de 2010

O PRESENTE

«Não importa saber se a gente acredita em Deus: o importante é saber se Deus acredita na gente...»
Mário Quintana

Deus acreditou em mim e deu-me um PRESENTE!
Sim, Deus presenteou-me com um momento lindo e mágico. Um presente que, na verdade, me trouxe a alegria de quem recebe um ramo de flores frescas. Flores de um jardim que existe, sim, mas que só visito nos meus sonhos mais secretos. Tal como as flores, este momento inundou o meu coração de cor, de presença de um jardim que… nem sei onde fica.
Mas foi um presente. Digo que foi de Deus porque só ele teria a força para transformar uma réstia de sonho, num feliz e poderoso momento de realidade provocado pelo suposto acaso. Se não veio de Deus, continuará a ser um presente, mas um presente envenenado. Daqueles que nos deliciam no momento e nos matam no futuro. De uma maneira ou de outra, como um ramo de flores frescas, este presente irá envelhecer no passar lento dos meus dias. Por mais que lhe troque a água, o afastamento do jardim, secará estas flores.
Mesmo assim, valeu a pena receber este presente. Envenenado ou não, desta vez tentei agarrá-lo firmemente, como uma criança abraça o presente almejado que não esperava receber. Não procedi como usualmente, passando ao lado arrogantemente e com mal disfarçada indiferença. Fiz isso muitas vezes. Naturalmente quereria o jardim com toda a sua fauna e flora… e não um ramo apenas das suas flores. Racionalmente não nos aproximamos quando sabemos que não temos portão aberto para entrar e que o muro é demasiado alto… O medo de cheirar as flores de um jardim em que só nos sentamos nos nossos sonhos é poderoso. É aterrador! Podemos ver e ouvir os pássaros daquele jardim, mas de longe. Sem saber que queremos que venham junto de nós, eles encenam voos delicados, mas ao longe…
Sonhar? Os sonhos não chegam. Os sonhos não têm cheiro. Na sua maioria, não têm as cores e os sons definidos e falta-lhes o toque do jardim, das flores, dos pássaros…
Poder-se-á perguntar: «Mas afinal, que presente é este?» Não posso nomeá-lo, não posso expô-lo. Se colocar este “ramo de flores” à mercê do calor impiedoso das convicções e preconceitos das gentes, consumir-se-á rapidamente. As gentes não nos dão o direito de sonhar alto... Mas posso adiantar que foi um momento único de imagem, palavras, gestos e sorriso. Flores que o tempo secará, com certeza, mas que eu não esquecerei que recebi.
Esta é a história estranha do “presente” que não sabe que o é. Do “presente” que é passado transportado para o presente e que, graças à minha capacidade de sonhar, manterá muitas das suas cores no futuro.


quarta-feira, 21 de julho de 2010

O tempo e o coração

Não deixa de ser surpreendente aquilo que o tempo faz em cada momento da nossa vida. O tempo que tudo condiciona, que nos oprime, que nos liberta.
Quando o tempo escasseia (até para dormir), quando passo o dia inteiro a trabalhar e a pensar no que tinha para fazer e não fiz, não ouço sequer o meu coração, que triste se remete ao silêncio.  
Quando a labuta abranda, o tempo sobra. Sobra tanto que permite que a minha mente se encaminhe, sorrateira, até às gavetas arrumadas do passado. Remexendo tudo o que nelas se encontra, dou de caras sempre com a solidão. Não é que estar só seja algo terrífico. Todo o meu ser racional me diz que é o estado mais seguro em que se pode estar...
Então qual é o problema? O meu coração! Vou chamar coração a toda esta parte de mim que não domino, não racionalizo e que tento abafar por me causar a mais profunda das dores. Este coração que lança uma neblina na vigia pela qual quero continuar a ver o mar da minha vida. Este coração endiabrado que acorda em mim necessidades que há muito não sentia. Que me traz ao de cimo as saudades de um futuro que não sei se jamais viverei. Quando tento dormir, ele acorda-me ao som das mais inquietantes baladas que me mergulham naquele estado letárgico de sonhar acordada. E não há nada nem há quem me ajude a suportar esta música que me vem do coração…