domingo, 17 de abril de 2011

Um novo entardecer


Não existe nada mais difícil do que a percepção de que não auferimos da amizade, da cordialidade, de alguém que admirávamos e respeitávamos. É uma dor profunda acompanhada de raiva e pena pelo investimento de atenção inútil.
Mas porquê? Também gostamos de plantas, de jardins, de flores, de peixes, de aves, de uma escultura ou de uma pintura. Não esperamos, no entanto, que eles nos devolvam cordialmente um sorriso, um aperto de mão, uma frase num sms ou num e-mail. Não esperamos nada. Já se for de um cachorro ou de um gato, esperamos talvez a lambidela simpática que recompensa a nossa festa amigável.
Mas as pessoas… as pessoas são absolutamente surpreendentes. Talvez porque esperamos delas que sejam “pessoas”. Não animais de estimação, mas também não narcisos indiferentes à nossa presença e afecto. Não pinturas belas e coloridas que não nos devolvem o olhar que depositamos nelas. As pinturas não têm alma, certo? Ou melhor, tiveram a alma de quem as pintou e depois terão outras almas: as de quem as admira e interpreta. Não são seres vivos, certo?
O meu leitor pode agora perguntar: “onde queres chegar?”.
A resposta é simples: não consegui chegar! Tenho que contentar-me com a injustiça plena de apenas ter partido.
Mas quero deixar uma mensagem a todos aqueles que se julgam pessoas. Alguns até pessoas importantes: VIP. Olhai bem à vossa volta e perguntai: estou a ser realmente uma pessoa, ou limito-me a ser um narciso, belo mas indiferente? Serei apenas belo e indiferente relativamente a alguns seres humanos que não considero que me mereçam atenção? Não porque me tenham sido desagradáveis ou nefastos. Simplesmente porque não me apetece perder um segundo da minha vida egoísta a devolver-lhes o sorriso, a pequena atenção, o elogio discreto que me votaram.
Sei que o mundo actual não se compadece com a tristeza de ninguém. Que um mau gesto é muito mais valorizado e prontamente ripostado que a delicadeza fruto da amizade. Mas mesmo assim, acredito que não é preciso ser-se tão frio, tão rude, tão mesquinho...
Felizmente que há sempre um novo entardecer, um outro caminho, um outro ser humano (o mundo está cheio deles). E... talvez para a próxima tenha mais sorte na aposta da minha amizade.
P.B. 

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