Hoje em dia todos nos queixamos da falta de “disponibilidade
financeira”. Quando olhamos para o fundo da carteira, os olhos entristecem e o estrato bancário parece sempre menos tranquilizante para o futuro. O futuro que
nem sequer sabemos se vamos ter. Deixámos de viver o presente para nos
projetarmos num futuro que não podemos controlar nem viver antecipadamente.
Os
nossos amigos, familiares, colegas de hoje chegam a ficar enevoados com os de
ontem e uns hipotéticos de amanhã. Só se dão passos seguros, amparados da “grande
experiência do passado” e na “bola de cristal” que nos mostra o futuro. Tudo: não
se faz, porque já se fez; não se é, porque já se foi; não se sente, porque já
se sentiu. Pior… Pior de tudo: não se faz, porque se espera fazer; não se é, porque
talvez se venha a ser; não se sente, porque se espera vir a sentir. E o tempo
vai passando… Disso ninguém se lembra, ninguém se apercebe…
Os nossos amigos
estão mesmo ali, do outro lado do computador, do telemóvel… Os nossos filhos
estão mesmo ali, sentados no sofá… Os nossos companheiros estão mesmo
ali, na sala ao lado, na cadeira ao lado… Mas não queremos sair para fora das
jaulas que nos construímos. Um gesto pode ser mal interpretado. O carinho e o
amor podem ser chatos e pior… ridículos. Transformámos as nossas vidas num
baile de máscaras, os nossos sentimentos numa enxurrada de hipocrisias. Todos
merecem sentir a mão, o beijo, a palavra dos que cruzam a mesma estrada, o mesmo
tempo, o mesmo presente. Se não podemos pagar um jantar, um ramo de flores,
talvez seja o momento de oferecer algo que não custe dinheiro e que seja menos
efémero. Talvez tenha chegado o momento de fazer, de ser, de sentir. De errar e
de corrigir, de avançar para alcançar, de cair para reerguer, de correr o risco
de amar.
P.B.
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