
“– Os moralistas tentam convencer-nos de que o
instinto sexual não tem muita relação com o amor. Referem-se a isso como se
fosse um epifenómeno. (…) Pois bem, há psicólogos que acham que o estado
consciente acompanha o trabalho do cérebro e é por ele determinado, sem no
entanto exercer nenhuma influência sobre ele. Mais ou menos como o reflexo de
uma árvore na água; não poderia existir sem a árvore, mas em nada afecta essa
árvore. Acho uma enorme tolice dizer-se que pode existir amor sem paixão; as
pessoas que afirmam que o amor pode perdurar depois de esgotada a paixão,
referem-se a outro sentimento, afeição, bondade, comunhão de gostos e
interesses, hábito. Principalmente, hábito. Duas pessoas podem continuar a ter
relações sexuais por hábito, assim como têm fome à hora a que costumam ter as
refeições. Claro que pode haver desejo sem amor. Desejo não é paixão. O desejo
é a consequência natural do instinto sexual e não tem maior importância do que
qualquer outra função animal. É por isso que as mulheres são umas tolas ao
fazerem um escarcéu quando os maridos de vez em quando saltam o muro, quando a
ocasião e o lugar são propícios.
– Isso aplica-se somente aos homens?
Sorri.
– Se insistir, serei obrigado a confessar que o que serve para um serve para o
outro. O único argumento contra é que, para o homem, uma ligação passageira não
tem nenhum significado sentimental, ao passo que, para a mulher, tem.
– Depende da mulher.
Não podia consentir a interrupção.
– A não ser que o amor seja paixão, não é amor, é outro sentimento; e a paixão
não aumenta com a satisfação e sim com a dificuldade. (…) A paixão não mede as
consequências. Pascal disse que o coração tem razões que a razão desconhece. Se
é que o interpretei bem, queria dizer que, quando a paixão se apodera de um
coração, este inventa, para provar que pelo amor todo o sacrifício é pouco,
razões não somente plausíveis, mas elucidativas. Ficamos convencidos de que
vale a pena aceitar a desonra, e que a vergonha não é preço exagerado para se
pagar por ele. A paixão é destruidora. Destruiu António e Cleópatra, Tristão e
Isolda, Parnell e Kitty O’Shea. E, quando não destrói, morre. É possível que
então a pessoa se veja na amarga contingência de reconhecer que desperdiçou
anos de vida, que se desgraçou inutilmente, que sofreu a tortura do ciúme,
engoliu toda a espécie de humilhações, deu a sua ternura, as riquezas da sua
alma a um ser insignificante, idiota, um cabide onde dependurou os seus sonhos,
e que não valia absolutamente nada.”
W. Somerset Maugham in “O Fio da Navalha”
Sem comentários:
Enviar um comentário